APOSTA
- bolacho clube
- 5 de nov. de 2024
- 2 min de leitura

Eu sinto pena daqueles que enxergam a vida como uma linha reta. Dó daqueles que realmente acreditam que passado, presente e futuro seguem necessariamente nessa ordem. Eu, por exemplo, já fui assim, mas sou filho do caos, fruto da aleatoriedade da vida. Sei que você não está entendendo nada no momento, mas deixe que eu conte minha história. Hoje, meu nome é Teresa de Amaral. Tenho 45 anos, sou dona de casa e devota com muita fé. Mas, em algum momento entre o espaço e o tempo, eu haveria de ser outra pessoa. Eu sei, está tudo muito confuso, mas continue me acompanhando, tudo irá se esclarecer. Originalmente, e até o exato momento do fatídico dia, eu era Michel dos Santos, tinha 14 anos de idade. Era uma criança bem comum, vivia em um bairro de classe média baixa, assistia desenhos, brincava na rua, adorava jogar bola e, principalmente, apostar corrida com meu melhor amigo, Jorge. Num determinado dia qualquer, Jorge e eu, que apostávamos muitas corridas, como já mencionei, sempre obviamente para ver quem era o melhor e mais rápido, fizemos um acordo. Não um simples acordo, mas sim um pacto de cuspe. Era a primeira vez que usávamos essa poderosa magia, claro, sem saber de tal poder. Crianças ingênuas, nós éramos.Logo começamos a usar desse selo e estávamos apostando algumas corridas de um poste a outro, volta no quarteirão, essas coisas. No começo, as apostas eram coisas pequenas, como: "quem perder, dança na rua", "quem perder, paga um refri..."Para minha "sorte", naquele dia eu estava impossível, ganhando todas contra o Jorge, e ele tendo que cumprir as pequenas humilhações acordadas. Eis que, num ato de tudo ou nada, com uma cara de "agora você me paga", Jorge prontamente, sem pensar muito, lança: "Quem chegar por último é a mulher do padre! " Eu, sem medo algum, aceitei, claro. Já havia ganhado as últimas quatro corridas, nada poderia dar errado, certo? Começamos a correr com toda a nossa gana e vontade. Jorge estava a um braço de distância atrás de mim, quando o pior aconteceu: Meu chinelo Havaianas, branco de listra azul, resolveu que aquele era um bom momento para me sabotar, e prontamente arrebentou. Eu catei tanto cavaco que Xande de Pilares teria inveja. Caí no chão, rolei algumas vezes e, lá no fundo, eu escuto Jorge: "Eu ganhei, eu ganhei, agora você é a mulher do padre, irro!" Um enorme clarão veio em minha direção, tudo se distorceu ao meu redor. Eu fui sugado junto daquela luz e arremessado para outra realidade, única e exclusivamente por conta de um pacto de cuspe com meu melhor amigo. Hoje, sou Teresa, dona de casa, esposa fiel do padre João de Amaral, da paróquia da família. Um homem honesto, padre respeitável, meu marido. Na saúde e na doença, até que a morte nos separe... Amém. E, se possível, evitem apostas. Mas, caso apostem, por favor, não percam. Às vezes, o preço é muito alto.
Conto escrito por: Lucas Zanata
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