CAFÉ COM LEITE
- bolacho clube
- 23 de set. de 2024
- 3 min de leitura

E no momento em que traumas do passado voltam para te assombrar, você perde totalmente o controle da sua vida, e, no piscar de olhos, tudo vai por água abaixo.
Lembro-me de quando era criança, vivia rodeado de muitas outras como eu, caçula de quatro irmãos, e talvez mais uma dúzia de outros coleguinhas que também moravam na mesma rua. Confesso que, nessa época, não era uma das crianças mais inteligentes; demorava para entender as coisas, era um pouco atrasado. A galera já estava começando a se interessar por coisas de adolescente, e eu adorava comer terra.
Meus irmãos só podiam sair para brincar na rua sob a condição de eu ter que ir junto. E, juntando a obrigação de me levarem com o meu nível de inteligência abaixo de zero, a galera da rua, depois de uma longa reunião, decidiu que eu poderia participar das alegres e divertidas brincadeiras, mas que minha presença e participação não teriam relevância nenhuma no desenrolar dos jogos. Em outras palavras, eu era o famoso "café com leite". Carreguei esse título por anos. Todos riam de mim. Qualquer movimento meu em qualquer brincadeira possível era inteiramente ignorado.
Eu não tinha respeito, não tinha relevância, era exatamente como se eu fosse invisível. Isso me gerou bloqueios e traumas. Já fui "café com leite" em menages que participei. No time de futebol da escola, já cheguei a ser "café com leite" até em pesquisa do IBGE, e desconfio ser "café com leite" até nas eleições. Mas, de certa forma, aprendi a conviver com isso, deixei de dar importância. Isso nada mais era do que preocupações de criança. Imagina só se um adulto vai ligar para essas coisas bobas. Eu sou dono de mim, eu controlo minha vida, e o que me faz bem ou mal. Era o que pensava, até que, em uma bela tarde de quarta-feira, no auge dos meus 35 anos de idade, ingenuamente decidido a tomar um delicioso e relaxante café da tarde, entro num pequeno café que havia sido inaugurado recentemente. Avisto uma mesa vazia no canto da parede, me aconchego nela, dou uma olhada no cardápio, muitas opções interessantes. O garçom se aproxima para anotar meu pedido. Dirijo minha atenção a ele e pergunto: -Tem boas opções no menu de vocês. Estou meio indeciso, por acaso você me sugere alguma coisa?
-Pois não, senhor. Acredito que o senhor irá adorar, e acho que é a sua cara, nosso delicioso café com leite.
Nesse momento, algo em mim despertou. Tudo começou a ficar escuro, a raiva me consumiu, e a última coisa de que me lembro é de eu dando um soco de direita no garçom.
No minuto seguinte, acordo numa cama de hospital. Minha cara está doendo, minhas costelas estão trincadas, clavícula quebrada, e uma enfermeira está do meu lado. Ela prontamente me explica que eu tive um ataque de raiva na cafeteria, dei um soco no garçom, mas, infelizmente, não sabia que aquele garçom era lutador semiprofissional de MMA, e que, além das fraturas, ele me deixou desacordado por 46 horas. Ela também disse que, aparentemente, minha recuperação seria rápida, e que eu era muito sortudo, pois havia acordado bem na hora do lanche... Bolacha Maria e café com leite...
E é sobre isso. Sem saber o que o futuro nos reserva, mesmo fazendo diversos planos, simplesmente existem coisas que não controlamos. Eu, por exemplo, no momento me encontro em regime fechado. Quatro meses já se passaram, ainda tenho que cumprir mais seis, se manter o bom comportamento. O que me fez parar na prisão? Agressão e tentativa de homicídio a um funcionário público, no caso, a enfermeira que cuidava de mim. E o que eu nunca imaginei na vida é que, hoje em dia, eu prefiro muito mais tomar chá. A vida tem dessas coisas mesmo.
Conto escrito por: Lucas Zanata
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